quarta-feira, 12 de maio de 2010

il silenzio nella stanza

Já não era sem tempo, Aurora? Por onde andaste tão sumida? Não te encontrei nos dias sem cigarro, nos domingos mal amados, nas ilusões alcoólicas, nas obsessões por limpeza e organização. Não deverias estar no mesmo lugar? Ou algo tão mais importante tirou minha atenção que não a vi fugir? Não fujas de mim, Aurora, agora estou aqui por inteira. Não te finjas de cega, putinha mal paga! Fale já comigo, tenho saudades do brilho dourado de outrora nos teus dentes. Não quero mais tua trepada; desejo um café e um cigarro. Comprei tua marca preferida, me acompanhas? São seis da manhã – em maio surges ao meu lado um pouco mais cedo. Não sei se com felicidade, desgosto, preguiça de viver ou vontade de trabalhar; independente disso, só quero alguns minutos de sua jornada – já que não sou o único a querer-odiando o alvorecer de sua companhia.

segunda-feira, 18 de maio de 2009

Madressilva ou Madre Silva.

Não é falta de procura, ou falta de ser procurada; lá está ela, com sua roupagem branca e o bouquet artificial com cheiro peculiar. Encontra-se em meio a desconhecidos, familiares, amigos - todos muito afetuosos, pegajosos, sexuais e travam uma disputa que será vencida por quem tiver a maior e melhor capacidade de desprezo.

Não é falta de procura, ou falta de ser procurada; e lá está ela novamente: o vestido branco, rasgado e manchado de vinho tinto e cinzas de seu cigarro longo. Gorducha, dedos curtos, unhas fazendo par com as manchas da roupa, o cálice cheio-semi-vazio, o bouquet murcho e o rosto deslumbrante. Rodeada pelos mesmos corpos anteriores, da início ao ritual de disputa. Recebe beijos e toques nos lugares mais sujos, iludindo-a de que aquilo é o que ela sempre buscou.

O silêncio tomou conta do casório.

Não é falta de procura. E mais uma vez a noiva gorducha está no mesmo lugar, quase desnuda - o vestido sujo, manchado e queimado já fora arrancado pelos mesmos já citados anteriormente. Permanecera a maquiagem extremamente vulgar que ressaltava suas rugas, dentes amarelados de nicotina, papadas e olheiras; e o véu não fazia questão de esconder o corpo estriado e esburacado que cultivara com tanta fartura ao longo dos anos. Os comensais arrancaram-lhe pedaços, deixando somente os dois buracos úteis da noiva. Sorria verdadeiramente com a felicidade alheia.

Já desnuda, demaquilada e despedaçada, só restava-lhe o bouquet com o insuportável cheiro de madressilva. Salão vazio, cinzeiros cheios e restos. Vestiu-se e partiu certa de que o ritual acontecido foi seu ideal de amor. Juntou as sobras para comer mais tarde.

Não é falta de procura e nem falta de ser procurada.
Só não sabiam (e nem sabia) onde achar e nem o que procuravam.

segunda-feira, 11 de maio de 2009

Conto do Canto Pelos Cantos

Foi naquele canto que tu surgiste. Um canto de conforto, só cabia a ti estar lá. Lembrou a forma como sonhei em cozinhar, trabalhar, rir, trepar, dormir, aproveitar - somente contigo. Estou ficando louco, esperando que por nada neste mundo sintas o peso de meus pensamentos, e nos mais íntimos momentos torço para atingí-lo de forma tão arrebatadora que te machuque profundamente.

Não lembro quando foi que me tornei amargo e vingativo, tu também não, obviamente. Tu provavelmente deixaste de notar que tomei o teu canto somente para mim, e estás tão perdido em outros que esqueceste de retomar o que te pertence. Em contraponto estou te roubando o desejo, o desejado, o conforto e os delírios tão cobiçados. Caso não tenhas notado, não preciso mais te usar. Levanto do teu canto - e canto - pelo alívio de me ver longe de tudo que cultivaste sem a mínima vontade de manter - foi onde, num átimo, o subalterno já te superou sem teres enxergado a realidade.

sexta-feira, 24 de abril de 2009

quem diria que fôramos um.

Depois do dia de hoje pensei que conseguiria vomitar (escrever) tudo o que gostaria. Após uma jornada chuvosa onde passei a maior parte do tempo com o coração a me dar socos, conversas desconcertantes em uma sessão de psicanálise (sexo: impossível fugir disso com Freud), pensamentos execráveis, ver a realidade distorcida, dormir e sonhar com a ex-namorada (passado distante), flambar o cérebro ouvindo música eletrônica, comer pelo menos o dobro do usual e tentar despistar o silêncio do meu apartamento com risadas sobre a vida alheia, cheguei a uma conclusão: minha inspiração está muito longe do que já foi. Maldita! O que fizeste comigo? Sinto-me roubado; devolva minha criatividade, por favor.

terça-feira, 7 de abril de 2009

Manipulada

Certo lugar em certa cidade. Calor costumeiro, bar vazio. No espelho ela espera uma troca de olhares que não será correspondida. tenta se concentrar no jogo, é somente sua terceira vez em mesa de bilhar. Aquele olhar vai dar uma volta, e ela solta para os amigos que o deseja. O segredo não guardado vira mais um jogo; dessa vez mais envolvente.

Eis que os olhares encontram-se finalmente. Olhares, palavras e mãos. Mais uma descida degradante - balbuciou ela - envolta por braços e cabelos ao vento. O cheiro é de forte perfume, que a fere. A fera não consegue entender o ar de ofendida, mas consegue fazê-la atender a seu próximo pedido; obediente e submissa, torna a cumprir tarefas. Satisfeito com a conquista, vai embora, deixando-a em seu quarto com a luz da aurora na janela. A moça adormece atordoada, sentindo a invasão enorme depois do acontecido. Poderia afundar em seu colchão por anos - não estava disposta a acordar com tamanha humilhação.

Ao entardecer, outra surpresa: o moço se arrependera; com um novo olhar - de vergonha - beija a moça furiosa e forçosamente - ele não sabia lidar com esse estranho momento de arrependimento amargo. Um tapa, outra discussão, outro momento extasiante. Não fosse o sadismo evidente no rosto barbado e o gosto pela auto-depreciação que transpirava do par de peitos, a cena era deveras torturante. Nunca se vira tamanho afeto antes, o bairro inteiro pode ouvir os delírios e gemidos cortantes. Outro dia termina, e mais uma marca entre as pernas; essa é para a coleção.